Cooperativismo na China: 4 lições para cooperativas do Brasil
Número, processo e método: o que a China ensina a quem dirige uma cooperativa no Brasil
Da Imersão Executiva China Coop 2026 voltam dados sobre varejo, finanças digitais, saúde e identidade cooperativa que ajudam a pensar o próximo ciclo de um movimento que, em 2025, chegou a 29 milhões de brasileiros.
Na área de musicoterapia do National Children's Medical Center, o hospital infantil da Universidade Fudan, em Xangai, uma visita técnica com horário e pauta definidos parou por alguns minutos. Um integrante da equipe Execoop sentou ao piano e tocou para as crianças internadas ali. A delegação da turma OCB/RJ e Sescoop/RJ tinha levado ao hospital uma pergunta difícil: se toda a tecnologia empregada ali fortaleceu a relação entre quem cuida e quem é cuidado ou se passou a competir com ela. Parte da resposta apareceu antes que alguém a formulasse.
A cena ajuda a explicar o propósito deste blog. Quem atravessa meio mundo para conhecer a China corre o risco de voltar com boas fotografias e alguns adjetivos, quando o que uma cooperativa precisa é de número, processo e método: dados que se possam verificar, a lógica de decisão que existe por trás deles e um caminho concreto para testar o que faz sentido na realidade de cada organização. É com esse critério que olhamos, a seguir, para quatro aprendizados da missão.

A imagem mostra o horizonte financeiro de Pudong, em Xangai, na China, visto do calçadão do The Bund à noite.
Dois sistemas cooperativos em escalas diferentes, diante da mesma pergunta
O cooperativismo brasileiro vive um momento de expansão. Segundo o AnuárioCoop 2026, do Sistema OCB, o país encerrou 2025 com 29 milhões de cooperados, o equivalente a 13,6% da população, distribuídos em 4.400 cooperativas que movimentaram R$ 848,4 bilhões em ingressos e distribuíram R$ 61,3 bilhões em sobras. Em seis anos, o quadro social passou de 15,5 milhões para 29 milhões de pessoas, um avanço de 87%.
Do outro lado, a China reúne mais de 2 milhões de cooperativas de agricultores registradas. Somente o sistema de cooperativas de abastecimento e comercialização, coordenado pela ACFSMC (All China Co-op), parceira da Execoop na Imersão, movimenta cerca de 1,5 trilhão de yuans por ano, segundo a Aliança Cooperativa Internacional. A escala impressiona, mas o que mais interessou à delegação na aula em Hangzhou foi a preocupação chinesa em proteger a identidade cooperativa com regras claras, já que a literatura acadêmica aponta há anos a existência de muitas organizações registradas como cooperativas que, na prática, funcionam como empresas privadas.
A pergunta vale para o Brasil. Quando o número de cooperados cresce mais depressa que a participação nas assembleias e na governança, preservar a identidade cooperativa exige regras, indicadores e formação de lideranças que a tradição sozinha já não garante. E a China já não é um tema distante para nossas cooperativas: o país respondeu por 32,7% das exportações do agronegócio brasileiro em 2025, enquanto as cooperativas exportaram US$ 17,4 bilhões, cerca de 10,3% de tudo o que o agro vendeu ao exterior.
O dado que decide o que vai para a gôndola
No Alibaba, em Hangzhou, a comitiva conheceu por dentro o Freshippo, a rede de supermercados do grupo. Cada loja funciona também como armazém e entrega em cerca de 30 minutos para quem mora num raio de 3 quilômetros. Com a maior parte das vendas saindo pelo aplicativo, a empresa usa os pedidos digitais para definir quais produtos frescos vai estocar, o que reduz o desperdício. A gôndola deixa de ser abastecida pela média do ano anterior e passa a refletir o que aquele bairro está pedindo naquele dia.
Para quem responde pelo varejo de uma cooperativa ou atende produtores de hortifrúti, esse ponto toca numa conta conhecida. A Embrapa, com base em estudos da FAO, estima que o Brasil perde entre 40% e 50% das frutas e hortaliças entre a colheita e o consumo, com grande concentração das perdas no manuseio, no transporte e na comercialização. A lição que interessa aqui dispensa uma estrutura do tamanho do Alibaba, porque começa por uma pergunta simples: o que muda na sua perda quando você sabe antes o que o consumidor vai comprar? Histórico de vendas por loja, pré-pedidos de cooperados e canais digitais próprios já permitem os primeiros testes.
Finanças embutidas e o preço da confiança
Na Shanghai International Studies University (SISU), a turma estudou a chamada fintechização das empresas chinesas. Na China, o crédito embutido em aplicativos de transporte, de delivery e de compartilhamento de bicicletas tornou-se corriqueiro, e o dinheiro passou a circular com mais rapidez entre setores que precisam crescer. O mesmo movimento, porém, ampliou a escalada das fraudes em ambientes financeiros cada vez mais digitais. A resposta chinesa apresentada em aula combina rastreamento em larga escala, regulação efetiva e a participação dos grandes players na identificação e na exclusão dos maus competidores do ecossistema.
O paralelo com o Brasil é direto. O ramo Crédito reúne quase 23 milhões de cooperados, perto de oito em cada dez associados do país, e em um número crescente de municípios a cooperativa de crédito é a única instituição com atendimento presencial. O principal ativo dessas cooperativas é a confiança, justamente aquilo que a fraude digital corrói com mais rapidez. A versão cooperativista da solução chinesa passa pela intercooperação: centrais e confederações que compartilham inteligência de prevenção a fraudes protegem cada singular melhor do que qualquer esforço isolado.
Tecnologia em saúde a serviço da relação de cuidado
O cooperativismo de saúde brasileiro reúne 695 cooperativas, 304,3 mil cooperados e 162,3 mil empregados, além de responder por 37,2% dos beneficiários de planos médicos do país, de acordo com o AnuárioCoop 2026. Para quem dirige uma dessas organizações, a pergunta levada ao hospital de Xangai cabe na própria operação: cada investimento em automação, prontuário digital ou inteligência artificial deveria ser avaliado também pelo tempo e pela atenção que devolve ao encontro entre profissional e paciente. Um bom indicador de sucesso tecnológico, na saúde cooperativa, é medir se o cuidado ficou mais próximo.
Do que se viu ao que se aplica
No fim da tarde da visita ao Alibaba, o grupo caminhou pelo Xixi National Wetland Park, a poucos minutos dali. A caminhada tem função no programa, porque é o intervalo em que as anotações viram conversa entre dirigentes de ramos diferentes e cada um começa a separar o que ouviu na apresentação daquilo que realmente cabe na sua cooperativa. Esse material segue para as fichas de registro e, depois, para o Plano Estratégico de Ação que cada participante leva de volta ao Brasil.
O desenho segue uma ideia que a Harvard Business Review defendeu em sua edição de setembro e outubro de 2026: programas de transformação rígidos costumam fracassar, e uma abordagem mais experimental, construída como jornada de aprendizagem, ganha tração e aumenta as chances de sucesso. Uma imersão vale pelo que muda nas decisões dos meses seguintes, muito mais do que pelo que se fotografa durante a viagem.

Conclusão: a pergunta para levar à próxima reunião de diretoria
O cooperativismo brasileiro chega a 2026 maior, mais relevante e mais exposto a mudanças que vêm de fora. A China mostra que escala, tecnologia e velocidade podem conviver com propósito coletivo quando existe método para decidir o que adotar e o que proteger.
Fica uma sugestão prática. Escolha uma decisão que hoje sua cooperativa toma por média, hábito ou palpite, seja o abastecimento de uma loja, a política de crédito de um segmento ou o fluxo de atendimento de uma unidade de saúde. Pergunte que dado mudaria essa decisão, quem pode reunir esse dado e em quanto tempo seria possível testar uma alternativa. Se a resposta couber em 90 dias, o aprendizado da China já começou a valer para você.
Referências
AnuárioCoop 2026: cooperativismo movimenta R$ 848 bi, MundoCoop (exportações das cooperativas e ramo Saúde)
AnuárioCoop 2026 (ramo Crédito), Sistema OCB/RJ
Balança comercial do agronegócio 2025, Faesp/Senar (China com 32,7% das exportações do agro)
ACFSMC: From Rice Fields to the Digital Marketplace, Aliança Cooperativa Internacional Ásia-Pacífico
Farmer cooperatives in China, Frontiers in Sustainable Food Systems
Alternative agrifood systems and farmers' cooperatives: the Chinese experience, Sustainable Development (Wiley)
Retailers at the forefront of China's New Retail, Econsultancy (Freshippo)
The Future of Shopping, CKGSB Knowledge (Freshippo)
Perdas e desperdício de alimentos, Embrapa
Pesquisas buscam formas de evitar o desperdício de frutas e hortaliças, Agrolink com dados da Embrapa
China Embedded Finance Market Report 2025, GlobeNewswire
Transformation Should Be a Learning Journey, Harvard Business Review, set./out. 2026

Comentários